Quem é pior no Final das contas?
Quem é pior no final das contas?
A história recente do Brasil tem testemunhado avanços importantes no campo social, mas também retrocessos que deixam marcas profundas. Um exemplo claro dessa oscilação é a diferença gritante entre a medida adotada em 2020, com a criação da pensão vitalícia para crianças com microcefalia causada pelo Zika vírus (Lei nº 13.985/2020), e a recente Medida Provisória nº 1.287/2025, que propõe um pagamento único de R$ 60 mil para essas famílias.
Em 2020, a aprovação da pensão vitalícia foi um marco de dignidade e respeito às famílias afetadas por uma epidemia que devastou lares em todo o país. A Lei nº 13.985/2020 garantiu um salário-mínimo mensal às crianças diagnosticadas com microcefalia associada à síndrome congênita do Zika vírus. Era um reconhecimento do Estado de que esses cidadãos, abandonados pelas consequências de uma crise sanitária, mereciam apoio contínuo para enfrentar uma condição permanente.
Por outro lado, em 2025, o governo parece ter escolhido o caminho mais fácil e menos humano. A Medida Provisória nº 1.287/2025 oferece às famílias um valor fixo de R$ 60 mil, que sequer arranha a superfície dos custos reais enfrentados por essas famílias. Essa quantia, que pode parecer expressiva à primeira vista, não cobre os gastos mensais e permanentes com saúde, alimentação especial, transporte e terapias — muitas vezes ultrapassando R$ 2.000 por mês por criança.
Veja este vídeo que ilustra a gravidade da situação das famílias afetadas.
Estima-se que cerca de 2.000 famílias sejam diretamente impactadas por essa mudança, mas a mensagem vai além dos números: o governo está abdicando da responsabilidade de cuidar daqueles que mais precisam. Por que essas famílias, que já enfrentam dificuldades extremas, devem aceitar uma compensação única e insuficiente? É como se lhes dissessem: “Resolva-se com isso, porque não vamos fazer mais nada por vocês”.
Enquanto isso, o governo não parece ter problemas para liberar bilhões de reais para outras iniciativas, como a Lei Rouanet, que, embora importante para a cultura, tem recebido recursos que poderiam, em parte, ser destinados para garantir uma pensão justa e digna às famílias das crianças com SCZ. Afinal, é uma questão de prioridades: por que financiar eventos e produções culturais quando a saúde e o bem-estar de crianças estão em jogo?
A crítica à MP nº 1.287/2025 não é apenas uma questão política; é uma questão ética. Não se trata apenas de números, mas de vidas. O governo deveria assumir o compromisso de manter a pensão vitalícia, ajustando-a de acordo com a inflação e o aumento dos custos de vida. O pagamento único é um atestado de descaso com uma geração que depende integralmente do apoio do Estado.
Para as famílias dessas crianças, a luta não acabou, porque a condição delas não é temporária. Elas enfrentam desafios diários que o valor de R$ 60 mil não cobre. O custo real vai muito além, e o preço desse abandono será pago não apenas por elas, mas por uma sociedade que se torna mais insensível e desigual a cada medida provisória que desumaniza seus cidadãos mais vulneráveis.
Afinal, quem é pior no final das contas: aqueles que nada fazem ou aqueles que fazem algo insuficiente, enquanto desviam recursos para áreas que não lidam com a sobrevivência? A história julgará, mas os números já mostram: as famílias foram deixadas para trás mais uma vez.
Comentários
Postar um comentário